Fome, dentro do conceito fisiológico, é a necessidade visceral de introduzir alimentos no estômago através da comida, ou seja, é a "necessidade de comer".
Apetite nem sempre é a necessidade de comer, e pode ser o desejo de determinado alimento por necessidade ou pelo prazer de come-lo.
O ser humano procura os alimentos para preencher suas necessidades viscerais e também para atender aos seus desejos de ingerir certos alimentos, porque são saborosos, atraentes, ou porque são conhecidos como extremamente apetitosos. Assim, a escolha não é baseada apenas na necessidade e é influenciada por outros estímulos. Ou seja, o ser humano não tem desenvolvido a capacidade instintiva de escolher a melhor alimentação entre outras opções, sendo sua escolha quase sempre influenciada por estímulos externos como propagandas, modismos, tradições, mitos, estilos de vida.
Os grandes progressos da medicina e da bioquímica celular, com os avanços tecnológicos e dos conhecimentos da nutrição, evoluíram recentemente com um enfoque para estudar a ação de cada molécula de nutriente nas células, sendo os nutrientes necessários para todas as funções celulares, em todas as suas fases, capacitando o sistema de defesa do organismo contra agressões oriundas do próprio organismo como também do ambiente externo. Porém, apesar de serem fundamentais e indispensáveis, a necessidade visceral desses nutrientes não determina a ocorrência da sensação de falta ou limitação. É esta situação que nos últimos anos vem sendo estudada, devido à repercussão dessa deficiência na prevenção nutricional de diversas enfermidades que afligem a humanidade e que, em parte, poderiam ter seu risco reduzido se as defesas orgânicas fossem garantidas ao longo de toda a vida, por cuidados nutricionais.
É a esta necessidade de nutrientes "protetores" e a redução silenciosa de determinados micronutrientes que denominamos de fome oculta. Assim, a fome oculta é a alteração nutricional que é decorrente da deficiência marginal de micronutrientes (vitaminas e minerais) e que segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde) consiste na necessidade não explícita de um ou mais nutrientes. É um processo gradual e progressivo no qual ocorre gradativa eliminação ou exaustão dos estoques de micronutrientes do organismo. O que ocorre em geral é a deficiência simultânea de diversas vitaminas e minerais e não a deficiência isolada de uma única vitamina. A curto e médio prazo pode favorecer o desenvolvimento de doenças crônicodegenerativas como doenças cardiovasculares, catarata e Câncer
As deficiências marginais de vitaminas e minerais ocorrem devido a três fatores:
- Ingestão de quantidade inadequada de alimentos;
- Ingestão de dieta inadequadamente balanceada do ponto de vista qualitativo;
- Aumento das necessidades de micronutrientes.
Entre as principais manifestações clínicas da fome oculta ou da deficiência marginal de vitaminas e minerais temos: inapetência, letargia, fraqueza, alterações do comportamento como irritabilidade, Insônia, Depressão, falta de concentração com diminuição do rendimento escolar e da produtividade no trabalho, maior suscetibilidade às infecções, convalescença retardada às doenças, além de capacidade diminuída para lidar com situações que exijam esforço físico.
A fome oculta é caracterizada pela deficiência de micronutrientes (vitaminas e minerais), afeta todos os níveis sócio-econômicos, é subclinica, ou seja, não leva a sinais e sintomas clínicos claros, não afeta peso e altura significativamente e o diagnóstico é realizado através de exames bioquímicos (nem sempre disponíveis).
Desta forma, para prevenir a fome oculta é importante definir os principais grupos de risco.
Os grupos de risco são os grupos que estão mais propensos às deficiências vitamínicas por motivos biológicos, isto é, a fase da vida pela qual passam, e pelo tipo de vida que levam, que condicionam necessidades superiores de vitaminas e minerais.
Entre os grupos de risco relacionados à fase de vida ou biológicos temos: crianças em fase de crescimento, adolescentes, gestantes, lactantes e idosos.
E entre os grupos de risco relacionados ao estilo de vida, temos: tabagistas, consumidores de álcool, esportistas, pessoas em dieta para emagrecimento, submetidas ao stress e com hábitos alimentares inadequados.
Em virtude da participação da mulher no mercado de trabalho, disponibilizando menos tempo para a compra e preparo dos alimentos, bem como do envolvimento geral das pessoas com as extenuantes jornadas de trabalho, a alimentação diária depende dos alimentos industrializados, o que leva a um consumo excessivo de carboidratos, proteínas, gorduras, mas quase sempre deficiente em vitaminas, minerais e fibras. Essas refeições deficitárias, com pouca variedade de alimentos e exageradas em açúcares e gorduras, levam a população a um paradoxo: maior incidência de sobrepeso e Obesidade e "fome oculta", caracterizada por deficiência de micronutrientes, principalmente de vitaminas e minerais. Além disso, a forma de preparo ou processamento dos alimentos pode afetar sua qualidade nutricional, especialmente em relação ao conteúdo de ácido ascórbico, tiamina e ácido fólico, e a biodisponibilidade de ferro, zinco e cálcio pode ser prejudicada pela ingestão concomitante de fibras, ácido fítico e tanino. Assim, embora seja possível encontrar todas as vitaminas de que precisamos numa alimentação balanceada e saudável, muitas vezes elas são destruídas no preparo dos alimentos, durante o armazenamento, produção ou transporte. As vitaminas são sensíveis ao calor, umidade, ar e luz e, ao ferver ou congelar os alimentos, acabamos destruindo grande parte das vitaminas que eles contêm.
A estratégia para a prevenção da fome oculta deve ser baseada em três pontos:
- Educação alimentar com promoção de dieta adequadamente balanceada;
- Enriquecimento de alimentos com vitaminas e minerais;
- Suplementações farmacológicas com polivitamínicos e minerais.
Estas três abordagens não se superpõem, mas se complementam.
Assim, a suplementação farmacológica pode ser considerada como uma forma de complementar a alimentação mas não de substituí-la, aumentando a oferta de micronutrientes, melhorando a qualidade da dieta e evitando que a fome oculta ou deficiência de vitaminas e minerais ocorra.
Assim, se no passado vitaminas eram utilizadas para curar, hoje, além de participarem como coadjuvantes no tratamento de doenças, constituem poderosos canais de prevenção.
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- Materia sobre a "Fome Oculta", escrita por Dr. Douglas para a Revista Corpo a Corpo
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